
À MARGEM DO VISÍVEL: A REEMERGÊNCIA DE MEMÓRIAS E TRAJETÓRIAS DE MULHERES AO LONGO DE UMA PESQUISA COM IMAGENS NO DISTRITO DE MARAVILHA – Aline de Jesus Maffi (UNESP)
Araraquara/SP/Brasil
Situado na dimensão do visível e do invisível, à margem da história oficial, encontra-se Maravilha, um dos oito distritos de Londrina/Paraná. A sua origem e nomenclatura remontam à década de 1940, a partir do loteamento da Fazenda Maravilha, no entanto, a sua instituição e anexação ao Município de Londrina ocorrem somente na década de 1970, através do decreto lei nº 6.914, de 02/09/1977.
A partir de 1930, inicia-se um processo que visava escrever e (re)escrever a história da região ao norte do Estado do Paraná, através de uma perspectiva dominante que produziu esquecimentos e silenciamentos de vozes divergentes, por meio da articulação de ideias e imagens. A promoção do discurso hegemônico “Norte do Paraná” contribuiu para a (in)visibilização de populações dissidentes, ao mesmo passo que marginalizou setores da sociedade em condição de desprivilégio socioeconômico, que se deslocaram à região em virtude das propagandas empreendidas pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) e de políticas públicas desenvolvimentistas que buscavam um esvaziamento de conflitos urbanos, dissipando-os pelo território nacional, a partir da promoção de fluxos migratórios.
É esse contexto que orienta os processos migratórios que levaram ao deslocamento das companheiras de viagem – que me acompanham na pesquisa “À margem do visível: a reemergência de memórias e trajetórias de mulheres ao longo de uma pesquisa com imagens no Distrito de Maravilha” – e de/ou seus familiares para Maravilha.
Nesse caminho, a elaboração da pesquisa conta com a colaboração de seis companheiras de viagem – Maria da Luz Caetano Lima, Rita Elena Hortêncio Neves, Carolina Alves de Souza (Lóla), Aparecida dos Santos Maffi (Dona Cida), Luzia dos Santos e Bela de Souza Mendes de Oliveira (Dona Bela) –, mulheres negras e brancas, com faixa etária entre 65 e 85 anos. O estudo se debruça na investigação dos sentidos de uma experiência coletiva, vivida em uma territorialidade compartilhada, no contexto de memórias e trajetórias (in)visibilizadas. E busca investigar se o entrelaçamento das trajetórias das companheiras de viagem, a partir do trabalho de memória realizado com as suas fotografias, ao possibilitar a reemergência de experiências e memórias, até aqui (in)visibilizadas, pode atrelar-se a processos narrativos contra-hegemônicos.
Esta fotografia, realizada em 2023, dialoga com o processo de rememoração de Maria da Luz Caetano Lima. Maria é uma mulher de 70 anos, trabalhadora rural, que há mais de 60 anos vive em Maravilha. Assim como outros trabalhadores não proprietários de terras, ela planta em terrenos que margeiam o núcleo do distrito.
Diante de suas fotografias, Maria inicia um longo percurso de memória, no qual os agenciamentos das imagens suscitam sentimentos que se expressam em seus gestos e expressões. Nesse encontro, entre Maria e a magia de “recriação” da fotografia, pessoas, paisagens e outras fotografias são revisitadas.
RESUMO DA PESQUISA: A história dos(as) habitantes do Distrito de Maravilha é vinculada à narrativa oficial sobre a história de Londrina e se associa a uma perspectiva historiográfica ocidental e hegemônica, repleta de silenciamentos, (in)visibilidades e esquecimentos. A pesquisa investiga as memórias e as trajetórias de mulheres negras e brancas, com faixa etária entre 65 e 85 anos, migrantes ou de família migrante, habitantes de Maravilha, que tiveram as suas trajetórias (in)visibilizadas pela história oficial. Ela busca reconhecer os sentidos de uma experiência coletiva a partir de álbuns de família de mulheres afetadas pelos marcadores sociais de classe, raça e gênero.
SOBRE A PESQUISADORA: Aline de Jesus Maffi (UNESP) é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina, especialista em Antropologia pela Universidade do Sagrado Coração. Possui mestrado em Docência para a Educação Básica pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho e pesquisadora vinculada ao Núcleo de Antropologia, Imagem e Performance (Naip). Atuou como pesquisadora e fotógrafa da Associação Renascer o Apoio à Cultura Indígena (ARACI).