
MÃOS QUE CURAM
Ester Corrêa (UFRN)
Esta fotografia é uma representação de parte do processo de extração do óleo da andiroba, um fruto/castanha de uma planta amazônida. O saber da extração exige um conhecimento específico que consiste na manipulação da castanhal em diversos passos até a extração final do óleo. Nesta imagem, está sendo extraída a massa da castanha – após a coleta, o cozimento e a quebra da mesma – que será em seguida amassada e de onde será extraído o óleo. Este é utilizado por suas diversas propriedades medicinais e de cura, sendo portanto um saber de cura. Desde o ano de 2021, tenho me interessado em pesquisar e registrar os saberes de Rita Corrêa, uma mulher amazônida, negra, evangélica, extrativista e agricultora aposentada – e minha mãe. A trajetória dessa mulher que cura por meio da manipulação de cascas, castanhas, frutos e folhas de plantas e árvores, permite pensar como os saberes populares são atravessados pela biointeração, revelando outras formas de cuidado e modos de vida que se articulam para além da subjetividade neoliberal. Isso pode nos conduzir a uma reflexão sobre formas outras de pensar o cuidado e a cura, revelando como os saberes em torno dos recursos ecológicos estão presentes na vida comunitária na contra mão da modernidade.
RESUMO DA PESQUISA:
Apresento aqui uma reflexão que parte de uma pesquisa que investiga os saberes de cura das mulheres, neste caso, os saberes relacionados à andiroba, que tem sido técnicas repassadas geracionalmente e que está em vias de desaparecimento na comunidade do Tatuaia, onde vive Dona Rita. Esta é detentora desse saber envolto em saberes herdados sobre a transformação desse rico material ecológico em óleos de andirora, óleo de coco e de castanha do pará, leite de sucuba e de amapá, chás variados, cada qual com seus respectivos saberes sobre as funções de cura. Por meio desta pesquisa, percebemos que se estebelece um processo de biointeração, citando Nego Bispo, na qual as pessoas e a ecologia local interagem constantemente na produção de formas de vida comunitárias.
MINIBIO DA PESQUISADORA:
Ester Corrêa é Doutora em Antropologia Social. Mestra em Antropologia Social (UFPA). Atuou como como professora na Facisa/UFRN. Pesquisadora, viajante, multiartista e escritora amazônida, integra grupos de pesquisa (GATA/UFPA; GCS/UFRN; AVAEDOC/UFPB) e coletivo de arte (Coletiva Feminart). Pesquisa sobre Gênero, Mulheres, Fronteiras, Viagens, Cultura popular e Relações étnico-raciais. Interesso-me especialmente pela perspectiva da Antropologia Feminista, da Antropologia Visual e do Pensamento des/decolonial.